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Escravos no Sul de Portugal
Séculos XVI-XVII
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| Autor: |
Jorge Fonseca |
| Prefácio: |
Isabel Castro Henriques |
| Editora: |
Vulgata |
| Edição Francesa: |
Editora La Découverte, Paris |
| Género: |
Estudos Africanos |
| Colecção dirigida por: |
Isabel Castro Henriques
Joana Pereira Leite |
| Primeira edição: |
2002 |
| Nº de páginas: |
262 |
| Dimensões: |
156 x 225 mm |
| Preço na livraria: |
19.70 euro |
| Preço na Internet: |
15.75 euro |
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Organização no âmbito do:
Comité português do Projecto UNESCO "A Rota do Escravo"
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Prefácio________________________________________
Se bem que a escravatura - ou outras situações de dominação extrema, como a servidão - tenham sido uma das componentes da organização social portuguesa, só no século XX é que se começou, embora timidamente, a organizar historicamente o seu conhecimento. A primeira grande tentativa de encarar a escravatura como um processo constante e regular na sociedade portuguesa é certamente a de Edmundo Correia Lopes, em 1945.
Esta ausência de estudos e de análises foi em parte provocada pela inexistência de interrogações éticas provocadas pela criação, prática e banalização da escravatura. Quando em Castela se realizava a controvérsia de Valladolid (1545), consagrada ao estatuto moral e mental dos escravos, não se registava em Portugal a mínima preocupação: teólogos e administradores associavam-se para alargar a prática da escravatura, sem a menor preocupação moral.
A própria abolição da escravatura intervém devido a um grupo restrito de homens, alguns dos quais tinha aprendido no exterior o autêntico valor do homem, que só pode afirmar-se quando livre.
Nos tempos mais contemporâneos a importação das teses de Gilberto Freyre teve como resultado uma espécie de amnésia geral em relação ao nosso passado escravocrata. A polémica desencadeada, bem involuntariamente por Charles Boxer, e na qual Armando Cortesão desempenhou um papel fundamental, obrigou os Portugueses a reexaminar o dossier, embora não tivesse provocado mais do que escritas ou militantes ou acidentais.
A chamada "descolonização" reforçou paradoxalmente a boa consciência portuguesa, apesar de historiadores como José Ca- pela terem iniciado uma obra onde a análise fornece argumentos à denúncia política.
A criação do Comité Português do Projecto UNESCO "A Rota do Escravo" forneceu, pela primeira vez na história cultural e política portuguesa, uma plataforma institucional, registando-se, simultaneamente, um maior interesse universitário pela questão. A realização em Portugal de algumas reuniões científicas internacionais consagradas a esta problemática, veio reforçar os suportes teóricos e institucionais que permitem o trabalho dos historiadores.
Jorge Fonseca consagrara já tempo, paciência e talento, a analisar a escravatura na cidade de Évora e seu termo no século XVI, permitindo superar as visões mais ou menos impressionistas que ainda marcam as considerações portuguesas. O rigor dos documentos fornecia um suporte histórico indiscutível.
Nesta análise dos escravos no sul português, podemos encontrar enunciadas as condições estruturantes que ligam a escravatura às regiões portuárias, de onde irradiam para o interior. Mas regista-se também, naturalmente, uma maior incidência da escravatura no sul, terra a des-arabizar e a colonizar.
Jorge Fonseca acrescenta alguns dados que permitem dar conta de uma redução do número de escravos do século XVI para o século XVII, situação acompanhada por um elemento fundamental: o crescimento contínuo dos escravos já nascidos em Portugal, entre os quais o elevado número de mulatos ou pardos que povoam a documentação utilizada pelo autor.
Se bem que se encontrem alguns escravos de origens geográficas diferentes - alguns índios, quer dizer indianos no nosso vocabulário actual e mouriscos - a verdade é que, já a partir de 1444, são os africanos que abastecem de escravos a sociedade portuguesa. Esta leitura permite também liquidar uma das lendas mais pertinazes, provindas de um juízo de Clenardo, que afirmava haver em Portugal mais pretos do que brancos. Ora o número de escravos nunca excede 10% da população autóctone, sendo antes de 6 a 7% em média, com tendência para descer.
Acrescente-se que esta investigação permite também liquidar outra lenda: os escravos não são um factor de desordens como por vezes se diz sem provas. Os documentos consultados por Jorge Fonseca, e dizendo embora respeito ao sul, mostram de maneira irrefragável que a criminalidade dos escravos não supera a média registada entre os portugueses autóctones. O que exclui a existência de qualquer forma de resistência organizada, estando os escravos dissolvidos na população, ocupados nas tarefas normais da produção. Se uma parte importante se consagra ao artesanato, o grupo mais numeroso é mobilizado pelo sector agro-pecuário, como se podia esperar num país de estrutura agriculturalista.
Acrescentemos que Jorge Fonseca pertence a uma espécie de historiadores decididos a utilizar os documentos acumulados nos arquivos de maneira tão sistemática como reveladora. Não nos faltam documentos onde a presença dos escravos se manifesta de maneira vigorosa e constante: é contudo ao historiador que cabe a responsabilidade de identificar, de classificar, de arrumar o acidental no sistemático.
Ousamos por isso afirmar que esta investigação, que não repele nenhuma das grandes lições anteriores, de Charles Boxer a Saunders ou José Capela, está destinada a fornecer um número incalculável de propostas de investigação, que permitam enfim compreender o mecanismo da escravatura dos Africanos em Portugal.
Lisboa, Setembro de 2002
Isabel Castro Henriques
Rota do Escravo/Estudos. Esta colecção, que agora se inicia, organizada no âmbito do Comité Português do Projecto UNESCO "A Rota do Escravo" criado em 1998, beneficia certamente do trabalho internacional consagrado à problemática da escravatura e do comércio negreiro, mas pretende assumir a responsabilidade de suscitar e de editar os documentos e os estudos capazes de devolver à historiografia portuguesa da escravatura e do comércio negreiro, nas suas diferentes fases e metamorfoses, a densidade problemática que nunca devia ter perdido. (Da Nota Introdutória da colecção).
Índice____________________________________________
PREFÁCIO
INTRODUÇÃO
1 - POPULAÇÃO ESCRAVA
1.1. Demografia
1.2. Origem geográfica
2 - PROPRIETÁRIOS
3 - FORMAS DE AQUISIÇÃO E COMÉRCIO
3.1. Modalidades
3.2. comércio
3.3. Preços
4 - TRABALHO DOS ESCRAVOS
5 - A VIDA DOS ESCRAVOS
5.1. Condições materiais
5.2. Condição jurídica e social
5.3. Violência
5.4. Discriminação
5.5. Relações afectivas
5.6. Animosidade
5.7. Fuga aos donos
5.8. Sexualidade
5.9. Casamento
6 - A ALFORRIA
6.1. Outorga VII / Sujeição a políticas liberais?
6.2. Venda da alforria
6.3. Alforria condicionada
6.4. conflitos
6.5. Motivações da alforria
6.6. Legados e doações
7 - OS LIBERTOS
7.1. Condição jurídica e social
7.2. Confrarias de negros
8 - CONCLUSÕES
9 - DOCUMENTOS ANEXOS
10 - FONTES E BIBLIOGRAFIA
10.1. Fontes manuscritas
10.2. Bibliografia e fontes impressas
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